ARTIGO

Sobreviver e Desenvolver-se nas Empresas: Ontem e Hoje


Por: Luis Felipe Cortoni*


Cena 1

  • 8:00hs chegada ao local de trabalho;
  • Papéis e pastas nas gavetas;
  • Máquina de escrever elétrica (esférica, última geração);
  • Preparar transparências para apresentar na reunião do setor;
  • Pedir uma ligação para a telefonista à serviço;
  • Fazer trabalho prévio para participar no curso gerencial de trabalho em equipe (40hs de duração);
  • Aviso de aumento de salário vindo do depto de pessoal;
  • Almoçar num dos 4 restaurantes da empresa, aquele do seu nível hierárquico;
  • Pedir um relatório de dados ao CPD;
  • Discutir com O&M uma norma de utilização da máquina “Xerox”;
  • Estar no oitavo posto (de cima para baixo) dos 10 níveis hierárquicos existentes;
  • 17:45hs retorno para casa.

Cena 2

  • 9:00hs chegada ao local de trabalho;
  • Micro ligado, 60 novos emails;
  • Vídeo conferência com parceiros da Venezuela, USA, e Hong Kong (o inglês do oriente é incompreensível!);
  • Reunião com pessoal da categoria de produtos e do processo de supply chain;
  • 25’ de visita a intranet para preencher formulário de auto avaliação de desempenho;
  • Reunião com célula de trabalho para tomar decisões técnicas e de gestão de pessoas;
  • Elaboração de relatório de custos da célula para enviar ao gerente;
  • Conference call com fábrica e MKT para update de lançamentos de produtos;
  • Verificar as metas para estimar o bônus do mês;
  • Estar no meio dos 3 níveis hierárquicos existentes;
  • e o almoço??
  • 21:00hs retorno para casa mais cedo por causa de compromisso familiar.

Quantos serão os anos que separam as duas cenas acima? Não é difícil de dizer: apenas 20 anos. Quantas diferenças! A única similaridade é a presença dos protagonistas. Por isso não interessa destacar aqui as mudanças ocorridas nestes anos e que transformaram os ambientes de trabalho tão drasticamente, estas todos nós conhecemos ou experimentamos.

No entanto, parece sempre muito mais importante discutir e refletir sobre que tipo de exigências (alguns preferem competências) são feitas aos protagonistas das cenas atuais do dia-a-dia organizacional, para que eles possam ter um desempenho adequado para sobreviver e obter sucesso profissional, em comparação àquelas exigidas dos protagonistas de ontem. Isto porque aprendemos, depois de muitas mudanças, que as estruturas e modelos de gestão organizacionais mudaram muito mais rapidamente do que a capacidade humana de se adaptar a eles e, alem disso, diz-se nos meios organizacionais que as pessoas são o patrimônio mais importante das empresas hoje. Portanto, nunca é demais buscar entender o que as empresas esperam/exigem dos seus profissionais hoje.

Algumas exigências feitas hoje são velhas conhecidas: trabalho em equipe, competência interpessoal, falar outro idioma, visão de resultados e de custos, estilo participativo... Quer dizer, vêem sendo desenvolvidas e discutidas com mais ênfase nos últimos 15 anos. Outras são inéditas, por isso mais recentes: trabalhar em/com grupos virtuais, autonomia decisória, trabalhar sem supervisão permanente, desempenhar-se em estruturas matriciais, ter visão de processo, falar outros idiomas...

Acrescente-se a elas a pressão por resultados, a vivência cotidiana com o ambíguo, o anacrônico, o virtual, o efêmero, o stressante, o rápido, e teremos um quadro fiel da luta pela sobrevivência de muitos nas organizações de hoje.

Obviamente os impactos em cada um de nós são diferentes. Alguns desenvolvem comportamentos adequados e se adaptam rapidamente sem problemas, outros sofrem para conseguir isto, outros acabam não conseguindo, porem mudam “à reboque”. Mas todos fazem esforços para decodificar estas tais exigências, buscam entendê-las e transformá-las em comportamentos adaptados e esperados pela empresa. Este processo de busca das pessoas é intenso e interminável, assim acontece o desenvolvimento humano.

Uma das fontes de apoio a ele tem sido, inegavelmente, as explicações teóricas, as metáforas, os depoimentos de líderes de sucesso, as analogias com o esporte, a literatura de auto-ajuda, os treinamentos alternativos... todos elaborados como tentativas válidas de ajudar a compreensão da realidade organizacional de hoje, e dar pistas de sobrevivência para amanhã às pessoas.

No entanto, estas fontes não são iguais nem em profundidade nem em intenção explicativa, esta parece ser também uma característica do contexto de hoje se comparado ao de ontem. É preciso que os profissionais desenvolvam, para distinguí-las, uma outra competência que pode ajudar neste caso: a visão crítica. Somente com ela poderão selecionar as informações/explicações deste tipo que chegarão a eles em uma velocidade e quantidade sempre crescentes. Poderão identificar as “soluções” milagrosas, simplificadoras ou “de banca de aeroporto” e muitas vezes enganosas, que oferecem rapidez sem muita perda de tempo com reflexões profundas, supostamente demoradas e portanto indesejadas.

Sobreviver e desenvolver-se no contexto organizacional de hoje tornou-se, portanto, um exercício complexo e ambíguo: de um lado estar pressionado para adaptar-se rapidamente às exigências de desempenho e de outro estar exposto a uma grande quantidade de fontes não muito sustentáveis de explicações e soluções, que não tratam o comportamento humano na empresa com a profundidade e a complexidade que lhe é inerente.


* Professor do Instituto Vanzolini (USP) e sócio-diretor da LCZ Desenvolvimento de Pessoas e Organizações (www.lczconsultoria.com.br).